É mentira que não debatemos a redução maioridade penal, há 24 anos que
estamos debatendo
Uma estratégia bélica nazista de 70 anos atrás
observa-se com assombrosas semelhanças no Congresso, afirma o cientista social
e filósofo Marcos Nobre. As incursões do Exército alemão na Segunda Guerra
foram efetivas pelas penetrações por surpresa, a falta de preparação geral do
inimigo e a incapacidade de reagir rapidamente às ofensivas. Nesses dias, os
deputados conservadores comandados por um, até agora, imbatível Eduardo Cunha
avançam com velocidade em assuntos relevantes como a redução da maioridade
penal, a discussão sobre o Estatuto do Desarmamento, ou a modificação do [...]
Estatuto da Família, que pode dificultar a adoção de crianças por casais
homossexuais. Já na trincheira, está um inimigo enfraquecido, sem fôlego diante
do bombardeio. ...
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“A batalha se ganha rapidamente, mas as guerras
relâmpago, Blitzkrieg em alemão, são intrinsecamente antidemocráticas, como tem
sido a discussão sobre a redução da maioridade penal. Temos que rebater que
existe um consenso formado sobre este assunto, isso é querer achar que as
pessoas não mudam de opinião com o debate. Não dá tempo para ter uma discussão
profunda sobre os temas e, se houver discussão, é apagada pela quantidade
inacreditável de assuntos importantes que são colocados ao mesmo tempo”, mantêm
Nobre.
Esta tática “proposital”, segundo Nobre, das forças
conservadoras, apontou-se um tanto na madrugada desta quinta-feira quando a
proposta que reduz de 18 para 16 anos a maioridade penal para crimes hediondos
e outras modalidades, foi aprovada por 323 a 155 votos. A vitória parcial, pois
o projeto ainda precisa ser analisado em segundo turno pelos deputados e votado
duas vezes pelo Senado, é a principal bandeira do Frente Parlamentar da
Segurança Pública, a chamada bancada da bala, que sai reforçada neste embate, a
pesar de não ter se aprofundado na discussão e não contar com estatísticas
fiáveis que dimensionem a participação dos jovens nos crimes do país.
As arengas dos policiais e militares aposentados,
associados à indústria armamentista e que acreditam na repressão como fórmula
contra a violência, são fáceis de memorizar, apelam ao emocional, e podem ser
reproduzidas facilmente no balcão do bar, no táxi, nos programas policiais e
nas redes sociais, embora reduzam o espaço de discussão à sua mínima expressão.
“Um coitadinho de 17 aninhos pega uma coitadinha e dá uma estupradinha, uma
matadinha [...] É isso que sociedade brasileira não suporta mais”, “estamos no
Congresso, representando você, que não aguenta mais tanta impunidade e quer dar
um basta nessa criminalidade dos menores”, “daqui a pouco vai [sic] faltar
cemitérios para as vítimas desses marginais”, "defendo a redução da
maioridade penal não por querer acabar com a violência, mas para punir os criminosos,
assim como uso o agasalho para me proteger do frio, e não para acabar com o
inverno"..., foram alguns dos apelos dos congressistas da bala na Câmara e
em seus perfis nas redes sociais.
“Eles saíram fortalecidos, sem sombra de dúvida”,
opina o cientista político e professor da FGV Carlos Pereira, “mas esta matéria
é muito controversa, não há uma alternativa vencedora, e os dois lados pecam
por não entenderem isso”, complementa Pereira. “Este setor lida com os
problemas de violência com violência, acreditam no estado repressor, mas os
parlamentares mais à esquerda apenas percebem o problema como um problema de
inclusão.”
Reforçada e com 30% mais de representantes que na
legislatura anterior, a bancada prioriza e pretende acelerar uma nova batalha:
a revogação do Estatuto do Desarmamento. A lei regula e limita desde 2003 a
aquisição e porte de armas no país e, segundo o Mapa da Violência 2015, salvou
160.036 vidas. Desde sua aprovação, foram formulados dezenas de projetos de lei
que buscavam flexibilizar o Estatuto sem sucesso, mas isso pode mudar, segundo
os especialistas consultados. “Existe uma possibilidade bastante concreta de
revisar o Estatuto. Eles estão conseguindo articular uma agenda bem populista,
embora os estudos comprovam que o desarmamento diminuiu o numero de homicídios
nas grandes capitais. A bancada vem com um discurso muito simplificado e
simplista e propõe soluções miraculosas para problemas complexos que precisam
de soluções complexas”, avalia o professor de estudos organizacionais da EAESP/FGV,
Rafael Alcadipani.
"Chegamos a um ponto de inflexão, a esquerda
começou a perder terreno este ano no Brasil. O povo não aceita mais comunismo
aqui, nem a depravação dos valores familiares", afirma o deputado e
ex-militar Jair Bolsonaro. "É mentira que não debatemos a redução
maioridade penal, há 24 anos que estamos debatendo [em referência à data de
aprovação do Estatuto da Criança e o Adolescente que institui os direitos dos
menores] e, enquanto você e eu conversamos, as mulheres estão sendo estupradas
por marginais". "Nossa prioridade é o Estatuto do Desarmamento que
tirou as armas das pessoas do bem, mas também vamos lutar para que evitar o fim
dos atos de resistência, os policiais que matam um bandido devem responder em
liberdade", continua o deputado.
Enquanto avançam as pautas de deputados como
Bolsonaro, que defende a retirada de alunos infratores das escolas para que não
contaminem os que desejam estudar, ou o líder da bancada Alberto Fraga, entre
cujas propostas está a de permitir que deputados e senadores possam entrar
armados no Congresso, retrocede a influencia do discurso progressista.
Há duas questões que explica o incomum
desequilíbrio de forças em um Governo, considerado de esquerda, segundo
Alcadipani. “Os deputados estão lidando com um problema verdadeiro que é um
país com uma das maiores taxas de crimes do mundo e o excesso de violência
aflige muito às pessoas. Uma segunda questão que favorece o avanço da agenda
mais conservadora é o enfraquecimento absurdo do Governo, que deveria ser de
esquerda, mas não consegue articular agendas menos conservadoras”, completa.
O porquê a bancada governista não consegue
neutralizar o inimigo encontra seu paralelismo também nas trincheiras
europeias, segundo Nobre. “Os franceses foram pegos de surpresa porque eles
prepararam suas táticas de defesa de acordo à guerra anterior, quando, na
verdade, estavam frente a uma tática nova de ataque. As forças opositoras aos
conservadores não conseguiram ainda enfrentá-las, mas elas vão achar a maneira,
é só questão de tempo. Eduardo Cunha está avançando rápido, mas está criando
muitas rixas”. Para Bolsonaro a estratégia da bancada se resume em uma frase
só: "Quem tem comandante [em referência ao presidente da Câmara] não perde
a guerra".
Fonte: Por Maríam
Martínn, Jornal El País com foto de Fabio Rodrigues Pozzebom (agência Brasil) -
05/07/2015 - - 00:57:52
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